domingo, 15 de fevereiro de 2026

Cadê a felicidade?

 

Neste começo de 2026, a internet foi chacoalhada por uma afirmação de Elon Musk, o homem mais rico do mundo. Em sua rede social X (antigo Twitter), ele ponderou: “quem disse que o dinheiro não pode comprar a felicidade realmente sabia do que estava falando”. A repercussão foi imediata e as visualizações alcançaram milhões em poucas horas.
Indagações para além do mundo físico permeiam a história dos homens. Nos dias bíblicos, alguém se aproxima do carpinteiro de Nazaré e pergunta o que deveria fazer para herdar a vida eterna. A resposta, aqui resumida, indica o cumprimento dos dez mandamentos, síntese do amor a Deus e ao próximo. Não satisfeito com a resposta, o jovem indagador argumenta que tudo isso ele já cumpria; o que faltava ainda? Tocando na ferida, o mestre responde: “vai, vende o que tens e dá-o aos pobres. Depois vem e segue-me”. Ouvindo esta palavra o moço retirou-se triste, porque possuía muitos bens.
Reconhecido mundialmente, o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado fez uma revelação impactante em uma de suas últimas entrevistas. Após décadas registrando guerras, fome, injustiças ele passou os últimos anos de sua vida dedicando-se a um projeto ambiental em terras de sua família, em Minas Gerais. Adoecido e deprimido com tudo que vivenciou no exercício da profissão, Salgado cunhou uma frase matadora: “tive vergonha de pertencer à espécie humana”. Passou, então, a viver próximo à natureza, dedicando-se aos bichos e às plantas.
Com um patrimônio avaliado em 668 bilhões de dólares (3,5 trilhões de reais), a frase publicada por Musk indica que ele não alcançou a felicidade. Entre os muitos comentários que recebeu, alguns irônicos e outros manifestando simpatia, havia conselhos para que se aproximasse da religião ou se dedicasse à filantropia.
Mas dá para juntar no mesmo texto a frase do bilionário, a confissão de Sebastião Salgado e a pergunta do jovem rico dos dias de Jesus? Certamente há mais conexão entre elas do que imagina a nossa vã filosofia. Juntando tudo no mesmo caldeirão depreende-se que a estupidez humana é imensurável, capaz de criar um sistema onde alguém acumula cifras inimagináveis de recursos enquanto mais de 600 milhões de pessoas passam fome no planeta.
O tempo passa e algumas coisas mudam pouco nesta terra de contrastes. Há mais de dois mil anos, o jovem rico seguiu, triste, o seu caminho por não querer partilhar seus bens. Musk lança uma dúvida sem resposta, e possivelmente sua angústia permanece. Ao mesmo tempo, ele aplica parte de seu dinheiro em financiar campanhas eleitorais, como a de Donald Trump, bem como no projeto de levar milionários para Marte.
De resto, fica a reflexão filosófica do texto de Eclesiastes: “Atentei para todas as obras que se fazem debaixo do sol, e eis que tudo é vaidade e vento que passa...” (Ec 1:14).
 

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